A guerra contra a China substituirá a Guerra ao Terror?

A retirada americana do Afeganistão, após 20 anos de um fracassado exercício de construção nacional, deixou muitos americanos e analistas dizendo: “Se naquela época soubéssemos o que sabemos agora, nunca teríamos tomado esse caminho”.

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Não sei se isso é verdade, mas, de todo modo, surge a seguinte questão: O que estamos fazendo hoje na política externa que, daqui a 20 anos, pode nos obrigar a olhar para trás e dizer:

“Se naquela época soubéssemos o que sabemos agora, nunca teríamos tomado esse caminho?”

Minha resposta pode se resumir a uma palavra: China. E meus temores podem se resumir a uns poucos parágrafos: os 40 anos de 1979 a 2019 marcaram uma época nas relações EUA-China. Houve muitos altos e baixos, mas, no todo, foi uma época de constante integração econômica entre os dois países.

A profundidade dessa integração EUA-China ajudou a alimentar uma globalização muito mais profunda da economia mundial e a fundamentar quatro décadas de relativa paz entre as duas grandes potências mundiais. E não nos esqueçamos: são os conflitos entre grandes potências que nos dão guerras mundiais enormemente desestabilizadoras.

Essa era de globalização EUA-China deixou alguns trabalhadores americanos desempregados, ao mesmo tempo em que abriu enormes mercados de exportação para outros. Tirou da pobreza centenas de milhões de pessoas na China, Índia e Ásia Oriental, ao mesmo tempo em que deixou muitos produtos muito mais acessíveis aos consumidores americanos.

Em suma, a relativa paz e prosperidade que o mundo experimentou nesses 40 anos não pode ser explicada sem referência à ligação EUA-China.

Nos últimos cinco anos, porém, os EUA e a China vêm tomando um caminho de desintegração e quem sabe até de confronto direto. Na minha opinião, os principais responsáveis por essa reversão são o estilo de liderança cada vez mais agressivo da China em casa e no exterior; suas políticas comerciais do tipo cara-eu-ganho-coroa-você-perde; e a mudança na composição de sua economia.

Se essa dinâmica continuar, há uma boa chance de que ambos os países – para não falar de muitos outros – daqui a 20 anos venham a olhar para trás e dizer que o mundo se tornou um lugar mais perigoso e menos próspero por causa do colapso das relações entre EUA e China no início de 2020.

Os dois gigantes deixaram de fazer muitos negócios, com ocasionais chutes por baixo da mesa, e passaram a fazer muito menos negócios, com chutes muito mais fortes e frequentes – tanto que agora correm o risco de quebrarem a mesa e saírem mancando. Ou seja, o risco de criarem um mundo muito menos capaz de enfrentar as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o ciberespaço e as crescentes zonas de desordem.

Mas, antes de passarmos da “coo-petição” para o confronto com a China, os EUA devem se fazer algumas perguntas difíceis. A China precisa fazer o mesmo. Porque ambos os países podem ficar com saudade desse relacionamento quando tudo acabar.

Para começar, os EUA precisam perguntar quais aspectos de sua competição/conflito com a China são inevitáveis entre uma potência em ascensão e uma potência em status quo e o que pode ser atenuado por uma política inteligente.

Os EUA devem começar com o inevitável. Durante os primeiros 30 dos 40 anos de integração econômica, a China vendeu aos americanos o que chamo de “produtos superficiais” – camisetas, tênis e painéis solares. A América, em contraste, vendeu à China “bens profundos” – software e computadores que se aprofundavam no sistema chinês, dos quais o país precisava e só podia comprar dos EUA.

Hoje, a China pode fazer cada vez mais desses “bens profundos” – como os sistemas de telecomunicações Huawei 5G –, mas os EUA não tem mais a confiança compartilhada para instalar suas tecnologias profundas nas casas, quartos e empresas americanas, nem mesmo para vender seus produtos mais profundos à China, como chips avançados. Quando a China vendia aos EUA “produtos superficiais”, não importava se seu governo era autoritário, libertário ou vegetariano. Mas, quando se trata de comprar “bens profundos” da China, os valores compartilhados são importantes – e esses valores não estão presentes.

Além disso, tem também a estratégia de liderança do presidente Xi Jinping, que vem estendendo o controle do Partido Comunista a todos os poros da sociedade, da cultura e do comércio. Ele reverteu uma trajetória de abertura gradual da China ao mundo desde 1979. Some-se a isso tanto a determinação de Xi de que a China nunca mais deve depender dos EUA para ter acesso a tecnologias avançadas quanto a disposição de Pequim de fazer o que for preciso – comprar, roubar, copiar, inventar ou intimidar – para garantir esse acesso. Essa é uma China muito mais agressiva.

Mas Xi exagerou. O nível de roubo de tecnologia e penetração das instituições americanas se tornou intolerável – para não falar da decisão chinesa de extinguir a democracia em Hong Kong, de exterminar a cultura muçulmana uigur no oeste do país e de usar seu poder econômico e sua diplomacia para intimidar vizinhos, como a Austrália, para que nem ousem pensar numa investigação adequada obre as origens do novo coronavírus em Wuhan.

Xi está virando todo o mundo ocidental contra a China – teremos uma dimensão melhor desse fato quando a China sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022 – e levou o atual presidente americano e seu antecessor a identificar o combate à China como o objetivo estratégico nº 1 da América.

Mas será que realmente os EUA pensaram no “como” de tudo isso?

Nader Mousavizadeh, fundador e CEO da Macro Advisory Partners, uma empresa de consultoria geopolítica, sugere que, se agora os EUA vão mudar seu foco do Oriente Médio para uma estratégia irreversível de confronto contra a China, devem começar com três perguntas fundamentais:

A primeira, diz Mousavizadeh: “Será que os EUA entendem a dinâmica de uma sociedade imensa e mutante como a chinesa bem o suficiente para decidir que sua missão inevitável é a disseminação global do autoritarismo? Especialmente quando isto exigirá um compromisso geracional por parte dos EUA, engendrando, por sua vez, uma China ainda mais nacionalista?”

A segunda, diz Mousavizadeh, que foi conselheiro sênior de longa data do secretário-geral da ONU Kofi Annan: “Se os EUA acreditam que sua rede de alianças é “um ativo exclusivamente americano, será que realmente ouvem seus aliados asiáticos e europeus sobre a realidade de suas relações econômicas e políticas com a China – garantindo assim que seus interesses e valores sejam incorporados numa abordagem comum para a China? Porque sem isso, qualquer coalizão vai desmoronar.”

Não há dúvida de que a melhor maneira de os Estados Unidos contrabalançarem a China é fazer aquilo que a potência asiática mais odeia: confrontá-la com uma ampla coalizão transnacional, baseada em valores universais compartilhados, como o estado de direito, o livre comércio, os direitos humanos e os padrões básicos de contabilidade.

Quando os EUA confrontam a China, presidente dos EUA contra presidente da China, Xi pode facilmente mobilizar todos os nacionalistas chineses para o seu lado. Quando os EUA transformam as coisas num confronto do mundo contra a China, diante daquilo que são as melhores e mais justas normas internacionais, isolam os linha-dura de Pequim e trazem os mais reformadores chineses para o seu lado.

Mas a China não responderá apenas a conversas nobres sobre normas internacionais, mesmo que enfrente uma coalizão global. Essa conversa precisa vir sustentada por uma influência econômica e militar. Muitas empresas americanas agora estão pressionando para que sejam revogadas as tarifas da Fase 1 de Trump aos produtos chineses – sem pedir à China que revogue os subsídios que haviam gerado essas tarifas para começo de conversa. Péssima ideia. Ao lidar com a China, fale baixo, mas sempre leve na manga uma grande tarifa (e um porta-aviões).

A terceira pergunta, diz Mousavizadeh: se os EUA acreditam que sua prioridade, depois de 20 anos de guerra contra o terrorismo, agora deve ser “consertar a casa – enfrentando enormes déficits em infraestrutura, educação, renda e igualdade racial” –, será que é mais útil ou mais perigoso enfatizar a ameaça chinesa? Levar a sério a renovação nacional pode empolgar os americanos. Mas também pode incendiar toda a relação EUA-China, afetando tudo, desde cadeias de suprimentos até intercâmbios de estudantes e compras chinesas de títulos do governo dos EUA.

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