Atraso no norte e avanço no sul: Mapa da vacinação reflete Brasil desigual

Amapá avalia que "saiu atrás" na corrida da vacinação no Brasil

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Com 43% da população totalmente imunizada contra a covid-19, o Brasil vê a vacinação avançar com disparidades entre os estados. O resultado é um mapa desigual da imunização no país, segundo mostra análise da reportagem a partir de dados obtidos pelo consórcio de veículos de imprensa, do qual o UOL faz parte.

As diferenças são gritantes —no Norte, seis dos sete estados têm as menores coberturas vacinais, enquanto estados do centro-sul surgem à frente com avanço inclusive na aplicação de doses de reforço (veja o mapa abaixo). O mapeamento espelha desigualdades socioeconômicas regionais.

Para se ter ideia da disparidade, enquanto o Mato Grosso do Sul lidera com 57,53% da população imunizada (ciclo completo), Roraima vacinou 22,4% —uma discrepância de mais de 30 pontos percentuais—, conforme dados do consórcio de veículos de imprensa da última sexta-feira (1º).

A desigualdade no mapa da vacinação é reflexo de condições geográficas e socioeconômicas nos estados —como composição etária da população, dificuldade de acesso a localidades e de acondicionamento dos imunizantes— aliadas a critérios de distribuição de doses adotados pelo Ministério da Saúde.

Com maior proporção de idosos e de profissionais da saúde (públicos prioritários da campanha de vacinação), estados do centro-sul (entre os mais populosos do país) largaram na frente e se mantêm com os percentuais de vacinados mais elevados. Especialistas na área da saúde ouvidos pelo UOL também apontam falhas na coordenação nacional pelo Ministério da Saúde.

Questionada sobre a desigualdade na vacinação no país, a pasta disse apenas que “a entrega de doses das vacinas covid-19 é realizada aos estados, responsáveis pela distribuição aos municípios” e que não garantirá doses a quem adotar esquemas vacinais diferentes do recomendado no PNO (Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19).

“Alterações no plano podem influenciar na segurança e eficácia das vacinas e podem, ainda, acarretar na falta de doses para completar o esquema vacinal na população brasileira”, disse o ministério.

O UOL pediu entrevistas com dirigentes do PNI (Plano Nacional de Imunizações) —há quase três meses sem coordenador após Francieli Fantinato pedir demissão do cargo—, mas a solicitação não foi atendida pela pasta.

Infraestrutura atrasa Norte

Entre as cinco regiões, o Norte apresenta os piores desempenhos em taxas percentuais de vacinação, com estados na lanterna tanto na primeira como na segunda dose/dose única.

O primeiro fator que ajuda a explicar a baixa cobertura é de ordem logística, segundo aponta o vice-presidente do Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde) e secretário em Cametá (PA), Charles Tocantins.

A região não contou com um plano específico para vacinar comunidades ribeirinhas e de povos originários de forma eficiente. A vacinação pelo critério de idade e as idas e vindas para aplicação das primeira e segunda doses dificultam a imunização em um contexto em que o acesso a povoados se dá a partir de longas viagens de barco.

Outra dificuldade é o acondicionamento das doses em temperaturas baixas e o transporte desses imunizantes até localidades distantes.

“Essa vacina necessita de uma temperatura que dificulta as campanhas que são feitas nas áreas ribeirinhas ou em áreas de floresta que não têm essa ambientação. Vacinar em áreas mais remotas da Amazônia sempre foi um desafio”, diz Tocantins.

O acondicionamento de vacinas é um dos problemas apontados, por exemplo, pelo governo de Roraima que, até quarta (29), havia distribuído aos municípios 572.696 das 762.268 doses recebidas do governo federal. “As vacinas em estoque são distribuídas conforme a capacidade operacional de cada município”, diz a Secretaria de Saúde.

“A velocidade da informação e do lançamento dos dados no sistema [do Ministério da Saúde] é outro ponto. A Amazônia tem um problema crônico de conectividade”, acresenta o representante do Conasems. Isso acontece em razão da deficiência de pessoal e de acesso à tecnologia. A regra costuma ser o preenchimento manual das fichas de vacinados, e só depois os dados são inseridos no sistema pelos municípios.

Idade fez estados largarem na frente

A entrega desproporcional de doses para estados mais pobres foi alertada desde o começo da imunização, quando o critério de distribuição levou em conta a população de idosos em cada estado.

“Desde o início, falamos que as nossas pirâmides etárias são de base larga. Ou seja: a gente tem proporcionalmente uma quantidade de jovens muito maior do que outros estados, especialmente no centro-sul do Brasil”, diz Juan Mendes, secretário de Saúde do Amapá e vice-presidente para o Norte do Conass (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde).

“Imagine que em uma corrida você sai depois do que os outros concorrentes? Foi o que ocorreu com a gente, que saiu atrás.” Juan Mendes, secretário de Saúde do Amapá.

Essas distorções na distribuição só foram corrigidas no final de julho, quando as entregas do Ministério da Saúde passaram a considerar a população total dos estados.

Apesar disso, o governo do Pará relatou ao UOL “déficit de doses” enviadas pela Saúde, o que o levou à compra de 1 milhão de vacinas diretamente do Instituto Butantan.

Para o epidemiologista e professor da Unifor (Universidade de Fortaleza) Antônio Lima Neto, o uso de critérios de idade foi decisivo para a distribuição desigual.

“Quando isso é o principal critério utilizado para vacinação, evidentemente você chega mais aos que têm uma maior população de idosos. Tem estado que a população acima de 60 anos beira os 20% total e outros em torno de 10%”, diz Lima Neto.

Embora tenha grande proporção de jovens, os estados do Nordeste não foram penalizados como os do Norte por não possuírem rincões inacessíveis (com exceção do Maranhão), segundo especialistas.

Falta de coordenação nacional

Especialistas também atribuíram a desigualdade na vacinação nos estados a uma falta de diretrizes por parte do Ministério da Saúde.

“O que tivemos no Brasil foi a insuficiência de governança cooperativa, sob uma autoridade coordenada, que gerou discrepâncias entre os estados”, afirmou Alcides Miranda, professor de Saúde Coletiva da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Com isso, gestores municipais e estaduais tomaram a frente da organização, definindo inclusive critérios de prioridades de vacinação. Miranda pondera contudo que conselhos de secretários estaduais e municipais não têm ingerência sobre variáveis críticas que possibilitariam ajustes no acesso aos imunizantes.

Na outra ponta, houve estados que avançaram na imunização a despeito das falhas de gestão nacional apontadas por especialistas.

São Paulo, o segundo estado que mais avançou (57,31% da população completamente vacinada), faz reuniões constantes com os municípios para entender as demandas de cada um, além de orientar por uma busca ativa dos faltosos, diz a coordenadora do PEI (Programa Estadual de Imunização), Regiane de Paula.

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