Autoridades criticam ausência de Bolsonaro em evento do bicentenário no Congresso

Conduta do presidente no 7 de Setembro foi rechaçada por líderes da oposição e recebeu indireta de Pacheco

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Cerimônia dos 200 anos da independência reuniu, entre outros nomes, presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló [à esq.], Luiz Fux, presidente de Portugal e Pacheco [à dir.] - Geraldo Magela/Agência Senado
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O presidente Jair Bolsonaro (PL) cancelou a ida ao evento de comemoração do bicentenário da independência no Congresso Nacional, que foi celebrado na manhã desta quinta-feira (8) com uma solenidade que reuniu autoridades dos Poderes da República e de outros países. Não só a ausência do chefe do Executivo recebeu críticas, como também a postura do ex-capitão durante os eventos de quarta-feira (7) em homenagem ao 7 de Setembro, quando ele foi acusado de confundir a comemoração cívica com a própria campanha à reeleição.

Em um discurso público no púlpito do plenário, o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), chegou a pedir desculpas às autoridades estrangeiras pela ausência “e não encaminhamento de nenhuma mensagem” do presidente da República à sessão, que recebeu saudações oficiais dos ex-presidentes Dilma Rousseff (PT), Lula (PT), Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Os quatro não compareceram, mas enviaram mensagens ao Legislativo.

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Enquanto ocorria a solenidade, Bolsonaro, que anteriormente tinha a presença no evento prevista em sua agenda oficial, fez uma transmissão virtual com crianças no Palácio da Alvorada, residência oficial. A ausência do chefe do Executivo foi interpretada, nos bastidores da política, como represália pelo não comparecimento dos presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo Tribunal Federal (STF) à celebração do 7 de Setembro em Brasília. 

“Eu acho que o fato de o presidente ter confirmado e depois ter se ausentado denota o mais puro desprezo pelo que aconteceu aqui hoje, que foi a celebração e a memória do bicentenário oficialmente, porque ontem não houve uma fala oficial sequer a respeito do assunto”, alfinetou o líder da minoria, Jean Paul Prates (PT-RN), ao falar com jornalistas após a cerimônia.  

O petista também estabeleceu um paralelo com o evento de quarta.  “Deu pra perceber claramente o que é a diferença entre uma celebração de bicentenário – oficial, institucional, com a presença de autoridades estrangeiras, com discursos adequados, com, de fato, uma celebração e uma análise histórica de um processo importante. Ontem foi praticamente um comício, um festejo eleitoreiro”, criticou. 

O senador informou à imprensa que está preparando um novo pedido de impeachment a ser protocolado ainda nesta quinta na Câmara por conta da conduta de Bolsonaro no evento. O parlamentar tem apresentado uma média de um documento dessa natureza a cada semana. 

Poderes 

A ausência de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Arthur Lira (PL) e Luiz Fux teve como pano de fundo o tom que Bolsonaro vinha imprimindo às comemorações, que resultaram em eventos com a participação do ex-capitão em Brasília (DF) e no Rio de Janeiro (RJ). Na ocasião, o presidente evocou o pleito deste ano e chegou a pedir votos à população, o que implica uso partidário do evento, que tem caráter histórico e cívico no país.

“A vontade do povo se fará presente no próximo dia 2 de outubro. Vamos todos votar. Vamos convencer aqueles que pensam diferente [sic] de nós. Vamos convencê-lo do que é melhor para o nosso Brasil. É obrigação de qualquer chefe do Executivo. Sabemos que temos pela frente uma luta do bem contra o mal, o mal que perdurou por 14 anos no nosso país, que quase quebrou a nossa pátria e que agora deseja voltar à cena do crime. Não voltarão”,  afirmou o ex-capitão, ao fazer críticas indiretas aos governos do PT e ao ex-presidente Lula, seu principal adversário.

A participação do chefe do Executivo no evento incluiu ainda uma menção ao STF, com o qual Bolsonaro tem alimentado rotineiramente crise institucional por atacar membros da Corte e fazer ameaças de golpe de Estado.

“Hoje todos sabem quem é o Poder Executivo, todos sabem o que é a Câmara dos Deputados, todos sabem o que é o Senado Federal e também todos sabem o que é o Supremo Tribunal Federal. A voz do povo é a voz de Deus”, disse, em tom mais brando do que o de costume quanto se refere o Supremo.  

Além disso, o presidente puxou um coro de “imbrochável”, em relação à sua suposta virilidade e ao proferir mais um discurso machista. A conduta não passou despercebida aos olhos do mundo político e foi associada, por exemplo, a supostas indiretas mencionadas no discurso de Randolfe desta quinta, que exaltou o papel das mulheres ao longo de lutas históricas do país, como é o caso do processo de independência política em relação a Portugal.

Senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Jean Paul Prates (PT-RN) representaram a oposição no evento / Geraldo Magela/Agência Senado

“[O Brasil] teve José Bonifácio, que arquitetou o projeto de nação, mas tem significado de diagnóstico com a atualidade também constatar que foi um processo liderado sobretudo por mulheres, mulheres que não se resignaram ao papel de princesas bem comportadas do lar. Aliás, a única princesa que teve foi regente e liderou o processo de independência, conduzindo o Conselho de Ministro e recomendando a ruptura ao príncipe regente, D. Pedro. Maria Leopoldina não se acomodou: foi protagonista da independência, e ela não foi a única”, enalteceu Randolfe.   

Ecos

De forma um pouco mais polida, Rodrigo Pacheco também fez o que foi entendido como uma evocação indireta à conduta que Bolsonaro tem apresentado diante do processo eleitoral, mas evitou citar o nome do presidente. “Lembro que daqui a menos de um mês os brasileiros e brasileiras vão às urnas praticar o exercício cívico de votar em seus representantes. O amplo direito de voto, a arma mais importante em uma democracia, não pode ser exercido com desrespeito, em meio ao discurso de ódio, com violência ou intolerância em face dos desiguais”, disse.

O parlamentar mineiro saudou ainda a presença dos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e José Sarney (MDB), bem como as comunicações enviadas pelos demais ex-chefes do Executivo que lembraram a data comemorativa, o que foi interpretado como mais uma indireta dirigida a Bolsonaro.   

Chegada do presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, ao Congresso Nacional / Pedro França/Agência Senado

Já o presidente do STF, ao discursar, fez menção à harmonia entre os Três Poderes, a despeito da crise institucional e da ausência de Bolsonaro. O Poder Executivo foi representado na cerimônia basicamente pelo ministro das Relações Exteriores, Carlos França, e alguns outros nomes do governo.  

“Nessa aventura histórica, a nação enfrentou e superou graves adversidades, consolidando-se, duzentos anos depois, como um país democrático, fraterno e com sólidas instituições que se relacionam harmoniosamente. (…) Hoje, os Três Poderes celebram juntos dois séculos da emancipação da nação”. 

A cerimônia também foi acompanhada pelos ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, bem como diversas outras autoridades nacionais. Alguns chefes de Estado de países de língua portuguesa também compareceram. Entre eles, estavam os presidentes da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, e de Cabo Verde, José Maria Neves.

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