EUA empreendem caçada para revelar elos de acadêmicos com a China

Iniciativa visa coibir roubo de segredos industriais; pesquisadores comparam episódios com perseguição da Guerra Fria

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O professor licenciado de Harvard Charles Lieber, investigado por ligações com a China, chega a tribunal de Boston para audiência em dezembro
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No final de 2021 a Justiça dos Estados Unidos condenou um dos mais importantes cientistas do país na área de nanociência por mentir sobre vínculos acadêmicos e financeiros com a China.

Charles Lieber, 62, pode pegar uma pena de até 26 anos de prisão, por causa de seis acusações: duas de mentir para o governo e quatro de evasão de impostos —a data da sentença não foi determinada, e o cientista, hoje em licença remunerada como diretor do Departamento de Química da Universidade Harvard, está no estágio final de um linfoma incurável.

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É um episódio extraordinário de mergulho em desgraça para um acadêmico celebrado, mas apenas um dentre dezenas de casos investigados pelo Departamento de Justiça dos EUA nos últimos anos, no que ficou conhecido como Iniciativa da China.

A preocupação americana com o roubo de segredos industriais e o esforço do governo chinês para recrutar espiões não é nova, mas em 2018 o governo do então presidente Donald Trump implementou uma espécie de caçada para forçar acadêmicos que captam fundos de pesquisa do governo federal a revelar vínculos com instituições chinesas.

A maioria dos indiciados até aqui é de chineses étnicos —cidadãos naturalizados ou imigrantes—, o que tem gerado comparações com a cruzada anticomunista da Guerra Fria, nos anos 1950.

O caso de Lieber vinha sendo visto como teste para a força das acusações do Departamento de Justiça, depois que mais de 2.000 acadêmicos denunciaram ao secretário de Justiça, Merrick Garland, um clima de discriminação racial e intimidação, pedindo o fim da Iniciativa.

O arquiteto do esquema, o ex-promotor Andrew Lelling, hoje na iniciativa privada, afirma à Folha que nunca houve motivação racial nas investigações. “Vários acadêmicos não compreendiam antes a necessidade de transparência. Nós reforçamos esse ponto.”

Lelling diz acreditar que o projeto ainda vai passar por mudanças no governo do democrata Joe Biden, mas ressalta que Trump foi apenas o primeiro presidente a tomar medidas concretas nesse campo —e que seu sucessor tem sido igualmente, senão mais, agressivo.

Mas o que dizer de cientistas que tiveram as finanças e a carreira destruídas? Durante o ano passado, o Departamento de Justiça retirou sete processos do tipo. Em setembro, um pesquisador da Universidade do Tennessee foi absolvido de todas as acusações feitas pelo governo, num processo que um dos jurados classificou de ridículo.

Protesto contra universidade chinesa na Hungria
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Anming Hu, ocupante de uma cátedra de nanotecnologia da instituição, foi seguido durante dois anos por agentes do FBI (a polícia federal americana) e acusado de mentir para a Nasa, a agência espacial do país, sobre seu trabalho com os chineses. A universidade começou a cooperar com o governo quando foi informada de que o professor seria agente do governo chinês e o demitiu.

Phil Lomonaco, advogado do pesquisador chinês naturalizado canadense, afirmou à Folha que o cliente vai recuperar a cátedra e o status legal que havia perdido na imigração por causa da ação.

Embora não queira comentar sobre casos específicos, Andrew Lelling acredita que a investigação de Hu continha falhas e se diz convencido que a maioria das acusações da Iniciativa da China foi justa.

O advogado de Feng “Franklin” Tao, outro proeminente cientista indiciado, refuta essas conclusões. “Isso é o comentário de quem não conhece a fundo a situação dos professores afetados”, afirma Peter Zeindenberg. “Sino-americanos da área de ciências estão vivendo num constante estado de medo e vários simplesmente decidem retornar à China, por causa do clima de hostilidade.”

O engenheiro químico chinês da Universidade do Kansas é residente legal nos EUA e foi indiciado por supostamente não revelar laços com uma instituição chinesa. Seu julgamento está marcado para março, e ele está endividado por causa dos custos envolvendo sua defesa —que ele tenta financiar em uma vaquinha virtual. Se condenado, pode receber uma pena de até 20 anos de prisão.

Embora negue que o preço pago por indivíduos foi alto demais, o ex-promotor Lelling vê mérito nas queixas de intimidação à cooperação acadêmica. Além da discriminação racial, que nega taxativamente, ele acha que a Iniciativa da China não deve afetar a “válida e saudável” cooperação científica internacional. “Não se ganha nada mantendo processos a indivíduos. O governo precisa liberar recursos para orientar acadêmicos e investigar o roubo de segredos corporativos.”

Consultada pela reportagem, a embaixada da China em Washington acusou a Justiça americana de discriminação racial e de ter planejado uma cota de casos mesmo antes de recolher provas. “É uma nova versão do ‘horror branco’ do macarthismo,” afirmou por email um porta-voz da representação diplomática. Segundo o órgão, o governo não acata valores de “direitos humanos e igualdade” que “sempre defendeu”,

China exibe novos aviões militares
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Charles Lieber processou Harvard para ter sua defesa bancada pela universidade e perdeu. Já o vizinho Massachusetts Institute of Technology, o MIT, está pagando os advogados de seu professor de nanotecnologia Gang Chen. Na última semana do mandato de Trump, há um ano, o então promotor Andrew Lelling ordenou a prisão de Chen e o acusou de ser leal ao país de origem —o professor se naturalizou americano há duas décadas.

O MIT não comentou o caso, alegando que o processo está em andamento. Mais de 200 professores das cinco escolas da instituição assinaram uma carta de solidariedade a Chen, acusado de recomendar estudantes para postos de pesquisa na Ásia financiados pelo regime chinês e de fraudar o contribuinte americano em bolsas no valor de US$ 19 milhões —o MIT alega que ele não recebeu diretamente esse valor.

O campo de nanociência, comumente encontrado nos indiciamentos, é especialmente sensível. Trata-se de uma área em que, instituições americanas preveem, a China está em condições de superar os EUA.

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