O problema entre Brasil e China não é Bolsonaro

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EPOCA / Larry Rohter

A China sempre foi uma sociedade altamente hierarquizada, e continua assim. Quer ser o suserano mundial.

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Abri o jornal hoje e vi três manchetes alarmantes sobre a China. “Um espaço virtual para debate entre chineses desaparece”, proclamou uma matéria na primeira página, sobre o fechamento de mais uma rede social que o Partido Comunista considera perigosa. Na mesma página interior onde terminava o artigo, encontrei “China prende jornalista australiana como espiã”, que nem precisa de explicação. E, finalmente, “Empreendedora chinesa era modelo de sucesso até se aproximar de críticos do Partido”, sobre o julgamento da dona de editora que patrocinava encontros entre intelectuais, dissidentes e ex-funcionários de alto escalão.

Imediatamente pensei na entrevista com o historiador escocês Niall Ferguson, publicada em O GLOBO no dia 7, em que ele culpa Trump e Bolsonaro pelas recentes tensões com Pequim. “O Brasil não ganha nada sendo hostil à China”, vaticinou. “Não é difícil para o Brasil ser um país não alinhado nesta nova Guerra Fria” entre China e os Estados Unidos, “porque não precisa ser tão próximo dos EUA para garantir sucesso econômico e estabilidade política”.

Ferguson, professor na Universidade Stanford e porta-voz de um conservadorismo tido como erudito, ganhou certo renome quando previu a crise econômica mundial de 2008. Mas também prognosticou que Donald Trump não chegaria nunca à Casa Branca, elogiou a invasão do Iraque em 2003, apoiou o Brexit e se diz favorável à dissolução da União Europeia. E na entrevista para O GLOBO sustenta que a situação do Brasil “é típica de todos os países” do antigo Terceiro Mundo, como se o Brasil fosse parecido com Angola ou a Tailândia.

Acho que ele está muito enganado. No caso de uma nova Guerra Fria — ainda não estamos lá —, não seria como a primeira. Duvido, por exemplo, que a Índia, cofundadora do movimento dos não alinhados e alvo de provocações chinesas ao longo de uma fronteira comum de 3.488 quilômetros, ficaria neutra. Além disso, seria travada tanto no espaço virtual como no físico, e países neutros teriam menos margem de manobra. Por quê? Porque a China não permitiria.

Para parafrasear um ditado sobre os alemães atribuído a Churchill, o grande problema de lidar com a China é que ela sempre está ou a seus pés ou com uma faca em sua garganta. Durante quase dois séculos, a China foi humilhada pelas potências ocidentais, que criaram enclaves em território chinês e impuseram suas leis. Não por acaso a China submissa foi alcunhada de “o homem doente da Ásia”, frase que ainda hoje enfurece Pequim.

Essa época já passou, e a China agora é uma superpotência: tem o maior Exército do mundo e em breve terá a maior economia. Mas segue ressentida, quer vingança pela humilhação e pretende impor sua visão de uma nova ordem mundial, que não presume o conceito da igualdade.

A China sempre foi uma sociedade altamente hierarquizada, e continua assim. Quer ser o suserano mundial — ou seja, nas palavras de Aurélio, deseja a vassalagem de Estados aparentemente autônomos, tal como existia na Ásia antes da chegada da primeira missão comercial inglesa em 1793.

Isso ajuda a explicar a crescente agressividade da China na área que considera sua esfera de influência. Nas águas ao sul do país, apoderou-se de numerosos recifes e ilhotas reclamados por Vietnã, Filipinas, Malásia, Brunei, Taiwan e Indonésia, construiu bases militares ali e ameaça cortar a navegação livre. Pior ainda, estão em marcha genocídios culturais e religiosos contra dois povos historicamente soberanos que a China comunista e ateia engoliu — os tibetanos (budistas) e os uigures (muçulmanos).

São comportamentos e crenças completamente antagônicos aos valores brasileiros. O Brasil é um país que preza a igualdade e o pluralismo — a diversidade de religiões, ideologias, raças e modos de viver. Valoriza a negociação em lugar do emprego de força bruta. Claro que não cumpre sempre com essas aspirações, porque, como os EUA, é composto de seres humanos falíveis. Mas abraça uma multiplicidade louvável.

O problema fundamental na relação Brasil-China, então, não está na atitude de Bolsonaro, mas na incapacidade chinesa de tratar outros Estados de igual para igual ou absorver críticas. Bolsonaro gosta de briga, sim. Mas o que é melhor para o Brasil: um presidente desconfiado que protege a soberania nacional com zelo excessivo ou a postura ingênua de Lula e o Partido dos Trabalhadores, que falavam de “cooperação sul-sul” e faziam vista grossa aos abusos dos direitos dos trabalhadores chineses?

Defender liberdade de expressão, religião ou comércio não é só um valor “americano”. É brasileiro também. Ao preconizar tais virtudes, o Brasil não está se posicionando como subjugado nem aliado dos EUA. Está simplesmente afirmando seus próprios princípios e tradições.

Larry Rohter, jornalista e escritor, é ex-correspondente do “New York Times” no Brasil e autor de “Rondon, uma biografia”

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