Postagem distorce entrevista de almirante americano sobre influência da China na América Latina

Circula nas redes sociais uma postagem enganosa afirmando que militares dos Estados Unidos teriam “confirmado a interferência direta da China na soberania do Brasil”. O boato traz frases de uma entrevista do almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA, a um site em agosto. Ele sequer menciona o Brasil na conversa.

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A entrevista do militar foi publicada em 12 de agosto de 2021 pelo Politico, um veículo jornalístico norte-americano. O conteúdo, escrito pelo correspondente em Washington Phelim Kine traz o título declaratório “Alm. Faller: China está explorando a corrupção na América Latina”.

Já a peça de desinformação que viralizou nas redes foi elaborada por uma página religiosa no Facebook que se descreve como um “espaço para difusão de ideias de política conservadora”. O grupo costuma publicar elogios ao presidente Jair Bolsonaro e ataques contra o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a CPI da Covid, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Supremo Tribunal Federal, entre outros alvos.

O Estadão Verifica constatou que o boato faz referência ao artigo do Politico ao comparar duas frases que aparecem na legenda do post com a entrevista original de Faller. Nesses trechos, o militar responde a uma pergunta sobre a “ameaça da China” aos interesses dos Estados Unidos na América Latina.

Faller argumenta que a influência de Pequim estaria crescendo em setores como tecnologia da informação, projetos espaciais, centros culturais e assistência contra a covid-19. Depois, sem maiores detalhes, acusa a China de “explorar a corrupção generalizada na região”, oferecendo suborno a autoridades em troca de acordos favoráveis, por exemplo.

Em nenhum momento ele apresenta provas de que a China estaria promovendo uma “interferência direta” no Brasil, como sugere o boato, ou em qualquer outro país da região. O conteúdo traduz apenas a opinião do militar sobre o assunto. A entrevista do almirante norte-americano, portanto, não é capaz de “confirmar” coisa alguma.

Militar assinou acordo com Bolsonaro no governo Trump

Apesar de a postagem enganosa ter sido compartilhada primeiro em agosto, o conteúdo voltou a circular com força no Facebook nesta semana, quando Craig Faller passou pelo Brasil em sua última viagem ao exterior. Ele está prestes a encerrar o serviço ativo nas Forças Armadas. Em entrevista a jornalistas, disse considerar que os militares brasileiros são tão “apolíticos” e “profissionais” quanto os dos Estados Unidos.

Em um gesto de aproximação do governo de Donald Trump com o Brasil, Faller também foi notícia ao assinar um acordo com o presidente Jair Bolsonaro, em março de 2020, envolvendo pesquisa, desenvolvimento, teste e avaliação no setor de defesa. Na época, ele afirmou que esse tipo de parceria era uma forma de responder às ambições da China na América do Sul. A negociação havia começado no governo de Michel Temer (MDB), em 2017.

Como noticiou o jornal O Globo, os Estados Unidos “encontram-se em uma disputa comercial, tecnológica e estratégica com Pequim, que tem expandido, principalmente por meio de investimentos e comércio, mas também de outros incentivos, sua influência na América Latina”.

O mesmo argumento de que Pequim estaria explorando práticas corruptas na América Latina apareceu em um depoimento anual do chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos ao Congresso, em janeiro daquele ano. O jornal Folha de S. Paulo apontou que o discurso tinha como objetivo evitar cortes de pessoal pelo Pentágono e guarda relação com disputas de Washington nos setores de infraestrutura e telecomunicações, principalmente acerca da tecnologia 5G.

Neste ano, o órgão do Departamento de Estado norte-americano responsável pelas regiões da América do Sul, América Central e Caribe publicou uma declaração destinada ao Congresso que cita nominalmente o Brasil duas vezes.

O primeiro trecho fala que a China ofereceu “empréstimos” para a região durante a pandemia de covid-19 e a usou como “pretexto” para doar tecnologia 5G e avançar com o projeto de “Nova Rota da Seda“. Como mostra essa reportagem do El País, o financiamento dos bancos chineses foi zerado na América Latina em 2o20, mas a China de fato realizou parcerias e ações de cooperação sanitária e econômica, principalmente em países como Venezuela e Equador.

No Brasil, o Insituto Butantan, que faz parte do governo de São Paulo, firmou acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac para o desenvolvimento de vacina contra a covid-19. Bolsonaro e aliados, no entanto, atacaram a China em diferentes momentos da pandemia, estremecendo as relações que também foram responsáveis por remessas de ingredientes para a produção do imunizante de Oxford/Astrazeneca pela Fiocruz.

Além disso, estatísticas oficiais de comércio exterior mostram que o país asiático representou 34,1% do total de exportações e 21,5% das importações brasileiras entre janeiro e agosto deste ano. Os Estados Unidos, por sua vez, responderam por 10,1% e 17,2%, respectivamente.

A outra citação do documento apenas lembra que a China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e sugere que o país “rapidamente avança” para chegar ao primeiro lugar em movimentação financeira na região, desbancando os Estados Unidos, dentro de 10 anos. Segundo o documento, entre 2002 e 2019, esse número passou de US$ 17 bilhões para US$ 315 bilhões, com estimativa de se chegar a US$ 500 bilhões até 2025.

Outro lado

A reportagem entrou em contato por e-mail com a página “A Igreja, a política e eu”, autora do conteúdo enganoso, nesta quinta-feira, 23 de setembro. Não houve resposta até a publicação desta checagem. Uma das versões acumulou sozinha mais de 32 mil compartilhamentos na rede.

O Estadão Verifica também encontrou tuítes distorcendo a entrevista do almirante Craig Faller ao site Politico, além de uma corrente dizendo que os comentários explicam decisões de ministros do STF e uma suposta “perseguição da imprensa” ao presidente Jair Bolsonaro. Essa passagem é uma tese pessoal do autor da mensagem, que circula sem identificação, e não consta entre as declarações do militar norte-americano.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas: apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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