Retorno de Lula fortalece conjunto da América Latina para 2023, diz pesquisador

Diante de problemas como crises políticas e econômicas, o ano de 2023 será desafiador para a América Latina. Para discutir o cenário regional e as perspectivas latino-americanas para o ano, a Sputnik Brasil conversou com dois pesquisadores de relações internacionais, que destacaram o papel do Brasil na região e possíveis soluções locais.

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O presidente eleito Lula desfila ao lado da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, durante a posse em Brasília (Foto: Divulgação / Ricardo Stuckert)
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Após um ano de agitação política e econômica na América Latina, com crises no Equador, Argentina e Peru e a recondução de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil, 2023 apresenta novos desafios para a região latino-americana.

Para Roberto Santana Santos, professor de educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a presença de Lula será fundamental para a América Latina neste ano devido ao tamanho da economia brasileira e à inserção internacional do país. Segundo ele, a região vive um momento de disputa perene, mas a influência do Brasil deve ser positiva tendo-se em vista que o país tem “a maior capacidade de articulação Internacional” do território latino-americano.

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“O Brasil, como o país mais importante da região, agora sob um governo progressista e de uma figura que é reconhecida como um estadista internacional, que é o Lula, pode reconfigurar as correlações de forças na região, a projeção da região a nível internacional e também a reorganização dos organismos regionais”, afirma o pesquisador em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

Na visão do pesquisador, “o retorno do Brasil” traz uma perspectiva positiva para toda a América Latina em 2023. Santos salienta que ao longo do governo do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro o país ficou isolado na região.

“É impensável você imaginar espaços multilaterais de diálogo entre os países latino-americanos em que o Brasil, que é o principal país da região, não participa. Seria a mesma coisa a gente imaginar a União Europeia sem a Alemanha, por exemplo. Não funciona, simplesmente não funciona.”

Nesse sentido, o pesquisador aponta que o retorno do Brasil a órgãos como a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) ajuda a região a se projetar em relação ao resto do mundo.

“A América Latina, para negociar com o mundo, precisa negociar de maneira unitária, conjunta. Se negociar país por país, [em] separado, seu poder de barganha é muito, muito diminuto. Se conseguir negociar de maneira coletiva com a União Europeia, com a China, com os Estados Unidos, ela tem muito, mas muito maior capacidade de resultados positivos do que [se] seus países negociarem separados. Então acho que com o retorno do Brasil abre-se uma grande possibilidade de a América Latina negociar em um patamar mais elevado com as grandes forças do mundo”, afirma.

Um dos espaços para esse desenvolvimento é o Mercado Comum do Sul (Mercosul), que, na avaliação do pesquisador, “não vem funcionando nos últimos anos” em razão da postura do governo brasileiro.

“Vamos lembrar que quando Bolsonaro vence em 2018 e anuncia o Paulo Guedes como ministro da Economia, uma jornalista argentina perguntou ao Paulo Guedes qual seria o lugar do Mercosul nas políticas econômicas do Brasil e nas políticas diplomáticas. Ele respondeu que nenhum, não é a prioridade. Não foi mesmo. A política do Brasil para o Mercosul durante o governo Bolsonaro foi não ter política. E com isso o Brasil, obviamente como a economia mais forte do Mercosul, desagregou completamente o bloco”, afirma.

Diante de desafios, América Latina precisa buscar consensos

Para Robson Cardoch Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NEL) da Universidade de Brasília (UnB), a América Latina precisa buscar consensos para encontrar soluções para seus problemas políticos e econômicos. Segundo o pesquisador, as principais questões comuns aos países latino-americanos se concentram nas mudanças climáticas, na defesa da democracia e na cooperação na área de defesa.

Nesses campos, Valdez destaca a necessidade de coordenação dos países pela preservação da Amazônia, pelo reforço das instituições democráticas e pela promoção e “revitalização” de mecanismos como o Mercosul, que na visão dele é “um projeto inacabado”, e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

“Acredito que será muito importante a reabilitação da Unasul como órgão de discussão sul-americana para questões de defesa, para buscar um diálogo. Esse órgão […] sempre serviu como um fórum para promover a estabilidade e a resolução de conflitos”, afirma o pesquisador em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, acrescentando que o órgão enfrenta desconfiança dos Estados Unidos.

Com relação à crise econômica em países da região, Valdez defende a necessidade da superação de um discurso de “economia ortodoxa”. Na visão do pesquisador, esse discurso imprime uma postura focada no enxugamento das contas públicas e deixa as necessidades da população em segundo plano.

“Acho que esse é o grande desafio. Agora, a resposta, acredito que seja pela via do investimento público. Não somente pelo investimento público, mas em paralelo com condições para que os atores privados também possam fazer seus investimentos”, aponta, lembrando que durante a pandemia de COVID-19 problemas de infraestrutura e produção industrial ficaram evidentes na região.

Nesse sentido, o pesquisador comenta que os investimentos chineses na região podem ser uma forma de estimular esses setores, apesar de ser uma questão desafiadora. Para ele, os investimentos em infraestrutura são os mais importantes.

“O mais desafiador é criar formas de construir complementariedade do investimento que chega com os destinos onde esses investimentos são alocados, para que esse investimento possa ser duradouro, como investimento em infraestrutura. Isso mesmo que esses investimentos chineses, no caso, sejam investimentos que lidam muito com fornecimento de recursos com baixo valor agregado. É possível buscar novas formas de canalizar esses investimentos de forma que sejam dinamizados para criar um processo que chamamos de transbordamento”, avalia.

Crise nas políticas locais: Colômbia, Peru e Chile

O pesquisador Robson Valdez se diz “otimista” com relação à capacidade regional de coordenar esforços para combater problemas ligados a crises e à violência ao longo de 2023. Um dos aspectos da questão é o avanço do acordo de paz na Colômbia entre o governo do presidente colombiano, Gustavo Petro, e o Exército de Libertação Nacional (ELN), que, segundo Valdez, é um exemplo da capacidade dos países da região de encontrar soluções.

Na avaliação do professor Roberto Santana Santos, esse acordo depende apenas da disposição das partes envolvidas.

“Por parte do governo colombiano e do presidente Petro, a disposição é total. Acho que a paz na Colômbia, o que significa o desarmamento de todos os grupos em armas, tanto guerrilhas de esquerda quanto os grupos paramilitares de direita, é a principal bandeira do governo Petro, que por sinal tem sido muito bem-sucedido”, destaca Santana, que também ressalta a reaproximação do país com a vizinha Venezuela.

Com relação à crise instalada no Peru após a destituição do ex-presidente Pedro Castillo, a expectativa de Robson Valdez é que a questão seja resolvida ao longo do ano. “Acredito que os próximos passos que acontecerão no Peru serão de busca pelo processo legal, pelo que determina a Constituição”, aponta.

Já com relação à crise argentina em meio à condenação da vice-presidente, Cristina Kirchner, Valdez acredita que esteja em curso um processo de abuso do Poder Judiciário semelhante ao que ocorreu no Brasil, levando à prisão de Lula pela operação Lava Jato. Para ele, o processo ainda está no início no país vizinho. “Enfim, como nós já vimos aqui, a gente acompanha com muita atenção e torcendo para que não aconteça na Argentina o que aconteceu aqui no Brasil”, diz.

Outra situação que deve chamar atenção em 2023 é a do Chile, que teve um projeto de Constituição barrado em um plebiscito no ano passado. A expectativa é que um novo texto seja votado no fim deste ano. Para o professor Santos, a tendência é que os elementos mais radicais do texto original sejam retirados e o texto seja aprovado no país.

“Com certeza o resultado vai ser muito mais enxuto, em termos de mudanças, de grandes transformações, do que seria com a primeira opção. O prognóstico do Chile, tanto para a constituinte quanto para o que resta do governo Boric, não é muito positivo para aqueles que veem a política a partir de um olhar mais popular”, aponta.

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