Um primeiro-ministro internético

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Wen Jiabao (温家波), o primeiro-ministro chinês, é conhecido aqui na China pela simpatia e pela maneira afável, bonachona, com que trata os chineses. Hoje ele quis ser moderno também e participou pela primeira vez de uma entrevista online.

Apareceu de tudo, como dúvidas em relação ao salário de um premiê, se ele alguma vez na infância havia almejado chegar ao cargo e até uma pergunta infame perguntando o quanto – e quando – de álcool ele bebe, comparando-o a um dos antecessores, Zhou Enlai (bueno, não sabia que o amigo do Mao tinha fama de bebum, mas vai ver que tem). O episódio do sapato arremessado contra ele em Cambridge no início deste ano também veio à baila.

A preocupação central, no entanto, tem a ver com empregos e crise. Ou a falta de emprego e a necessidade de se ampliar o consumo. Apesar de até agora 15,3% dos 120 milhões de trabalhadores migrantes terem abandonado as cidades para voltar às suas aldeias, no chat quem mais perguntava sobre o tema desemprego eram jovens recém saídos da faculdade e também ainda sem ocupação. Aliás, a quantidade de perguntas de jovens pode indicar que a rede é mesmo popular nesta faixa estária. 

A China, como diversos outros países, vê o desemprego afetar prioritariamente duas esferas diferentes da sociedade, os pouco instruídos trabalhadores migrantes (mão de obra barata para pegar no pesado) e os graduados ainda sem experiência profissional.

Wen não foi lá muito otimista. Disse que a crise está longe de acabar e que o caminho para superá-la será árduo. Sobre as decisões do governo acerca da questão e de outras más, ele disse que os cidadãos têm o direito de criticar e expressar suas opiniões. 

Zona Política Especial

O fórum para a declaração de Wen acerca das críticas populares parece adequado. A Internet é vista na China como um espaço de construção democrática e de discussões que levam a decisões políticas, inclusive. Inclusão digital… 

A coisa é levada tão a sério que o espaço, mesmo controlado por diversos filtros impostos pelo próprio governo chinês, é chamado de Zona Política Especial, uma referência às Zonas Econômicas Especiais, as cidades chinesas que têm status diferentes das demais e que, na prática, detém mais flexibilidade na hora de negociar com o Exterior. O modelo foi implantando no país pela primeira vez há 30 anos, mais ou menos.

Os chineses, que aprenderam que podem criticar, também aprenderam ser irônicos. Quando querem falar de algum tema mais sensível, usam a expressão hexie. Um chiste com o significado “harmonioso” que hexie pode encerrar, se grafado 和谐. É assim que o presidente, Hu Jintao, classifica a sociedade da China, uma sociedade harmoniosa – e é neste caminho que ele busca apoiar suas políticas. Os censores, ao descobrirem que a harmonia pretensa dos internautas trazia vozes dissonantes àquelas almejadas pelo poder central, começaram a censurar mensagens e sites que continha a expressão. Mas o mandarim permite que um mesmo som tenha outro significado – e, na grande maioria das vezes, isso é escrito com diferentes caracteres. Agora, para marcar temas sensíveis, os internautas usam o mesmo hexie, mas para significar caranguejo do rio: 河蟹. 

Aberto a críticas

Wen Jiabao disse estar aberto a críticas, não é mesmo? Um internauta aceitou a provocação do premiê. Há poucos dias na China ele provocou polêmica a ajudar com dinheiro uma criança portadora de leucemia de uma província vizinha a Beijing, Hebei, a garantir vaga e tratamento em um hospital da capital.

Durante o chat, Wen teve de admitir que não basta um primeiro-ministro bom, mas é necessária a constituição de um sistema médico que satisfaça as necessidades da população. A China tem 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma é avaliado em quase US$ 15 mil. Wen, aliás, doou US$ 1,46 mil à paciente em questão.

* Por Janaína Camara da Silveira, originalmente publicada em 28 de fevereiro de 2009, em Beijing

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